Brasil e Reino Unido ampliam cooperação científica para enfrentar desafios climáticos na Amazônia
Encontro internacional em Belém reuniu pesquisadores dos dois países, resultou em seis propostas de pesquisa e marcou a assinatura de um acordo de cooperação entre a Universidade Federal do Pará e a Universidade de Birmingham

Foto: Jússia Carvalho.
A busca por soluções para os desafios climáticos da Amazônia ganhou um novo impulso com a aproximação entre pesquisadores brasileiros e britânicos. Entre os dias 12 e 17 de outubro, Belém recebeu um workshop internacional que reuniu cientistas em início de carreira, especialistas e representantes de comunidades tradicionais para discutir caminhos de pesquisa voltados à sociobiodiversidade, às mudanças climáticas e ao desenvolvimento sustentável da região.
O encontro resultou na elaboração de seis propostas de pesquisa interdisciplinares, com potencial de submissão a instituições de financiamento nacionais e internacionais, e na assinatura de um Memorando de Entendimento entre a Universidade Federal do Pará (UFPA) e a Universidade de Birmingham, do Reino Unido, para fortalecer a cooperação acadêmica e científica.
Promovida pelo British Council, a iniciativa foi realizada pelo Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (NAEA), da UFPA, e pelo Brazil Institute, da Universidade de Birmingham, no âmbito da iniciativa Amazônia +10. Intitulado Sociobiodiversity, Mobility and Climate Action in the Amazon: Building Interdisciplinary Pathways for Sustainable Futures, o workshop reuniu dez pesquisadores vinculados a instituições da Inglaterra e dez pesquisadores da Amazônia Legal, acompanhados por seis mentores. A proposta foi aproximar a produção científica das realidades sociais, ambientais e territoriais da Amazônia, incorporando conhecimentos de populações tradicionais à construção de novas agendas de pesquisa.

Foto: Roberta Cartágenes.
Ciência da Amazônia
A escolha de Belém como sede do encontro reforçou a importância de desenvolver pesquisas sobre a região a partir de seus próprios territórios, especialmente diante dos debates internacionais sobre a crise climática e a conservação da biodiversidade. Para Angelo Martins, codiretor do Brazil Institute da Universidade de Birmingham e um dos coordenadores do workshop, a localização do encontro foi parte fundamental da proposta científica. “A Amazônia está no centro dos grandes desafios do nosso tempo, como a crise climática, a perda de biodiversidade e as desigualdades sociais. Por isso, não faz sentido discutir o futuro da região apenas fora dela”, afirmou.
Segundo o pesquisador, realizar o workshop em Belém, cidade que sediou a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), representou uma oportunidade de aproximar a pesquisa internacional dos conhecimentos e das experiências de quem vive na região. “Realizar o workshop em Belém, cidade que sediou a COP30, significa produzir conhecimento a partir do território, em diálogo com quem vive e pesquisa a Amazônia todos os dias”, destacou.
A programação combinou atividades acadêmicas, debates interdisciplinares e experiências de campo. Entre os temas abordados estiveram financiamento científico, engajamento público, impacto social da pesquisa e colaboração entre diferentes áreas do conhecimento.

Foto: Roberta Cartágenes.
Conhecimentos tradicionais
Um dos eixos do encontro foi a participação de representantes de comunidades quilombolas, extrativistas e indígenas, que compartilharam experiências sobre a proteção dos territórios, a produção de conhecimentos e os desafios enfrentados pelas populações amazônicas.
Organizações Quilombolas de Santarém (FOQS), além de Letícia Moraes e Robson Santos, lideranças regionais do Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS). A presença dessas lideranças permitiu discutir como a pesquisa científica pode contribuir para demandas concretas das comunidades, incluindo a defesa de direitos territoriais, o monitoramento ambiental e a construção participativa de instrumentos de gestão e proteção dos territórios.

Foto: Jússia Carvalho.
Para Nírvia Ravena, professora da UFPA e coordenadora do workshop, o diálogo entre pesquisadores e populações tradicionais é essencial para ampliar o impacto social da ciência. “O workshop proporcionou aos estudantes ouvir lideranças que muito conquistaram, em defesa de seu território, a partir de colaborações entre os povos tradicionais e a comunidade científica”, afirmou.
Segundo a pesquisadora, as lideranças apresentaram experiências de construção conjunta de protocolos de consulta, cartografias sociais e mecanismos participativos de diagnóstico e monitoramento territorial. “Elas compreendem que o direito anda lado a lado com a ciência, e que precisamos de ciência engajada para avançarmos no desenvolvimento e na defesa do território amazônico”, acrescentou.
As discussões evidenciaram a importância de reconhecer os conhecimentos produzidos pelas comunidades como parte da construção de pesquisas capazes de responder às necessidades sociais e ambientais da região.
Da biodiversidade à bioeconomia
A programação também incluiu atividades de campo para aproximar os participantes de experiências relacionadas à sociobiodiversidade, à conservação ambiental e ao uso sustentável de recursos naturais.
Na Ilha do Combu, próxima a Belém, os pesquisadores conheceram iniciativas ligadas à valorização dos produtos da floresta e às atividades econômicas desenvolvidas por comunidades ribeirinhas. Entre as visitas esteve a Fábrica de Chocolate Filhas da Ilha, onde o grupo teve contato com práticas produtivas relacionadas à biodiversidade amazônica.

Foto: Roberta Cartágenes.
Os participantes também visitaram a sede do Movimento de Mulheres das Ilhas de Belém (MMIB), conhecendo experiências de manejo e utilização da andiroba, recurso florestal associado às atividades produtivas e à bioeconomia regional. As atividades ofereceram aos pesquisadores a oportunidade de relacionar os debates acadêmicos a experiências concretas de uso dos recursos naturais e organização comunitária.
Outro momento da programação ocorreu no Parque Zoobotânico do Museu Paraense Emílio Goeldi, instituição parceira do encontro, onde os participantes acompanharam discussões sobre arte, ciência e engajamento público, com contribuições da artista visual e programadora cultural Clarissa Passarinho, do documentarista Sam Liebmann, da arquiteta Karol Gillet e da liderança indígena Ângela Kaxuyana, integrante da Associação Indígena Katxuyana, Tunayana e Kahyana (AIKATUK).
O grupo também visitou as exposições Diversidades Amazônicas e Katxar Kum Neero: o caminho das retomadas dos Katxuyana e Kahyana, esta última concebida e narrada por indígenas por meio da AIKATUK. As atividades ampliaram as discussões sobre diferentes formas de produzir, compartilhar e comunicar conhecimentos relacionados à Amazônia.










